
Comunidades quilombolas e preservação do Cerrado: as necessidades de restauração do conhecimento
O Cerrado é o segundo maior bioma do Brasil e um dos mais ameaçados do planeta. Mais de 50% de sua cobertura original foi convertida em pastagem e monocultura. Mas há uma sobreposição que a maioria das análises ignora: as áreas mais bem preservadas do Cerrado coincidem, com uma regularidade impressionante, com territórios quilombolas.
Isso não é coincidência. É o resultado de séculos de manejo da terra. As comunidades quilombolas — descendentes de assentamentos de resistência afro-brasileira — ocupam o Cerrado há gerações, em muitos casos há mais de 200 anos. Elas desenvolveram práticas de uso da terra que mantêm a vegetação nativa funcional: colheita de frutos sem derrubar árvores, cultivo de corte e descanso com ciclos de pousio, e extração sustentável de espécies como pequi, baru, mangaba e buriti sem comprometer a regeneração natural.
Kalunga: a maior comunidade quilombola do Brasil, dentro do Cerrado
O território Kalunga, no nordeste do estado de Goiás, abrange mais de 260.000 hectares e abriga cerca de 8.000 pessoas. É a maior comunidade quilombola do Brasil — e uma das áreas mais bem preservadas do Cerrado em Goiás. Enquanto as fazendas de soja avançam ao seu redor e os rios secam, dentro do território Kalunga a vegetação nativa resiste. As nascentes correm. A biodiversidade persiste.
A Samaúma atua no território Kalunga com um modelo construído sobre uma premissa simples: as pessoas que vivem ali sabem mais sobre aquele ecossistema do que qualquer técnico de fora. Damião, por exemplo, vive no território há décadas. Ele conhece cada espécie nativa, entende onde cada semente germina, lê os ciclos de floração e frutificação com uma precisão que os acadêmicos levariam anos para desenvolver. Na operação da Samaúma, ele não é um "beneficiário". Ele é uma referência técnica.
As comunidades quilombolas não precisam aprender a preservar o Cerrado. Elas fazem isso há séculos. O que precisam é de reconhecimento formal, emprego decente e políticas que respeitem o seu papel.
Emprego formal em território tradicional
Um dos problemas crônicos que as comunidades quilombolas rurais enfrentam é a falta de emprego formal. Os jovens migram para as cidades, o conhecimento tradicional se perde e os territórios tornam-se vulneráveis à pressão da grilagem. A Samaúma contrata diretamente nessas comunidades — com contratos CLT, salários e direitos trabalhistas integrais. Dos mais de 230 funcionários formais da organização, mais de 50% são indígenas ou quilombolas.
Isso muda a dinâmica local de forma concreta. Quando um jovem quilombola de 22 anos tem um emprego formal de restauração em seu próprio território, ele não precisa ir embora. Quando uma mulher quilombola é contratada como coletora de sementes com carteira assinada, o conhecimento que ela carrega — transmitido por sua avó — torna-se um ativo profissional, não uma curiosidade antropológica.
260.000 hectares — a extensão do território Kalunga no nordeste de Goiás
~8.000 pessoas vivem na maior comunidade quilombola do Brasil
50%+ da equipe da Samaúma é indígena ou quilombola, todos sob regime CLT
72% de taxa de sobrevivência terrestre — com espécies selecionadas por especialistas locais
Restauração sem comunidade é plantio sem raiz
O setor de restauração ecológica do Brasil cresceu nos últimos anos, impulsionado por metas climáticas e pressão regulatória. Mas grande parte da indústria ainda trata o território como um espaço vazio a ser preenchido com mudas — ignorando que ali vivem pessoas, que ali existe conhecimento, que existe história.
O resultado é previsível. Projetos que plantam sem considerar o contexto local enfrentam altas taxas de mortalidade, conflitos de terra e resultados ecológicos medíocres. A muda pode sobreviver, mas a floresta não se forma. Porque uma floresta não é uma coleção de árvores — é um sistema. E os sistemas precisam de pessoas que os entendam por dentro.
A experiência da Samaúma no território Kalunga demonstra o que acontece quando a equação é invertida. Quando a comunidade é o ponto de partida — e não o apêndice social do projeto —, a restauração funciona. As espécies certas são plantadas nos lugares certos, nos ciclos certos. As taxas de sobrevivência aumentam. O ecossistema responde.
O Cerrado precisa de restauração em escala. Mas escala sem conhecimento local é desperdício. As comunidades quilombolas não são um complemento para a restauração. Elas são a sua pré-condição.
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